segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Crescimento humano e conforto pessoal geralmente nunca andam juntos

Eu sempre aprendo coisas novas (todos podemos estar sempre aprendendo), ou pelo menos eu sempre acho que aprendo coisas novas, mas o que importa é que eu sempre estou aberto a novas experiências e a novos conhecimentos (eu sei que nem sempre são conhecimentos úteis, ou conhecimentos “científicos”), sejam estes científicos, culturais, pessoais ou sociais.

Aquele que deseja sinceramente aprender tem de abrir mão de sua área de conforto e muitas vezes estar disposto a jogar fora seus (ou parte de seus) conceitos e paradigmas, por novos, por mais que machuquem ou nos choquem. Aquele que deseja aprender tem que estar disposto a abrir mão de muita coisa que aprendeu como se verdade fosse, tem de estar disposto a botar em teste (quando possível) o que acredita, e estar aberto a refutar muitas de suas crenças, ou mesmo muitas coisas que jurava serem comprovadas. Aquele que deseja aprender e ao mesmo tempo ficar em sua área de conforto, e mesmo assim espera crescer como pensador, como ser humano e ser social, está mentindo para si próprio. Aquele que deseja aprender sem desafiar seu conhecimento atual, seus conceitos e sua estrutura de pensar, estará sempre fadado a se perder por vias secundárias que jamais levarão a algum conhecimento mais completo. Cabe comentar que o conhecimento completo e absoluto, talvez jamais o alcancemos, não que ele não exista, ou que seja relativo em absoluto, apenas que nossas limitações, nossas imperfeições, nossa "insensibilidade" (ou mesmo sensibilidade limitada pelos sensores naturais, ou pelos que criamos) para muitas coisas o impossibilitará.

Crescimento humano e conforto pessoal geralmente nunca andam juntos. Em muitos casos são coisas antagônicas e que não se misturam. O conforto pessoal implica na manutenção de nossos preconceitos, de nossas verdades, de nossas crenças, e implica em uma preguiça e certa inação em buscar o novo, em rever o que pensamos. O crescimento humano implica na ousadia de buscar, na coragem de se transformar, no desapego de abrir mão do que acredita já possuir.

Para crescer necessitamos de grandes doses de ousadia, de coragem, de esforço, e de dedicação, é necessário entusiasmo, audácia, atrevimento, paixão, amor e desprendimento (não somente físico, mas mental -  onde o alento é, independente da dor de largar conhecimentos que pareciam verdadeiros e que gostaria que verdadeiros continuassem sendo, chegar cada vez mais próximo de algum conhecimento mais robusto e verdadeiro), em uma jornada muitas vezes psicologicamente dolorosa.

Sendo materialista, e por isto ateu, e não concordando com a assertiva a seguir, em seu sentido místico dado, existe uma colocação de São João da Cruz que me foi importante no passado e que ainda hoje, com as devidas limitações, e com uma interpretação material, me movimenta muitas vezes: “é necessário a coragem para saltarmos no escuro”. Eu prefiro a ousadia de tentar, de saltar no escuro a procura de conhecimentos e verdades, sabendo o risco de me machucar, a ficar e permanecer na mesmice, na omissão e na inatividade. Neste caso o saltar no escuro, hoje, não é sair como louco, perdido ou desesperado a procura de algo, do que não sei, pois pode ser que caminhemos por estradas que nos levem a lugares piores do que o que hoje estamos, ou mesmo a conhecimentos mais imperfeitos, a dogmas mais idiotas, a preconceitos e a fé cega. Saltar no escuro também não pode ser se largar na espera ou na crença de algo sobrenatural, de alguém místico, ou seja lá o que for de transcendental que venha nos ajudar, é preciso ter a certeza de que tudo que existe é no fundo real e material, assim saltar no escuro é ter a coragem de sair a busca, com racionalidade, com critérios críticos, sem saber exatamente onde a busca vai nos levar, onde a procura poderá destruir parte de nosso castelo conceitual, mas ter a coragem de assim que as evidências nos mostrem, abdicar daquilo que críamos pelo que agora se nos é mostrado. 

O saltar no escuro aqui, é com o máximo possível de meu poder mental, da lógica que consiga alcançar, da racionalidade que me for possível, de uma séria e corajosa análise crítica, me lançar no escuro de não saber exatamente o destino a que vou chegar, podendo assim ir para lugares que me obriguem a rever todos ou partes de meus conceitos, mesmo aqueles que mais gostaria que fossem verdadeiros, que mais desejaria que significassem o que deveria para mim ser, porem desejar não é saber, querer não é sinônimo de nenhuma verdade, e acreditar é mera e tão somente acreditar.

Viver é complicado, por mais que existam aqueles que vendam a imagem de que viver é fácil, que basta amar, mas amar também é muito complicado. Viver é ser um pouco de engenheiro, um pouco de psicólogo, um pouco de médico, um pouco de cientista, um pouco de humano, um pouco de animal, um pouco de louco, um pouco de poeta, um pouco de vanguardeiro, um pouco de transformador, um pouco de fazedor de opinião, um pouco de educador, um pouco de aluno, um pouco de você mesmo, um pouco dos outros, mas sempre sustentado com boa porção de ousadia, racionalidade, análise crítica, e com um estado de abertura ao que é novo, uma vez que “tudo munda o tempo todo no mundo”. Eu ousaria uma pequena troca nesta colocação para “quase tudo muda o tempo todo no mundo”, incluindo nós mesmos. Isso porque normalmente tenho certa aversão aos termos “sempre”, “tudo”, “nunca” ou “nada”, e neste caso creio que algumas coisas não mudam, ou porque simplesmente não existam, ou porque já o foram, já ocorreram, já são coisas do espaço-tempo passado, como a morte, a verdade (não a interpretação da verdade que esta sim muda o tempo todo no mundo), mas a verdade em si, mesmo que possa ser que “jamais” tenhamos competência e capacidade para conhecer algumas verdades por completo.

Assim termino repetindo que Crescimento Humano e área de conforto não caminham juntos. Porque deveriam? Quem falou que a verdade deveria suave, bela ou humanamente justa? A verdade, em especial as verdades naturais, as verdades da realidade do universo, nem sabem que existimos, elas são o que são e cabe-nos entender, aprender e crescer no que for possível com elas, e se for possível, cabe-nos aprender a “construir” alternativas para que estas verdades possam nos ajudar.

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