Eu não vivo porque sou, mas eu sou porque vivo. O viver sempre precede o ser, ninguém é ou pode ser, sem viver. O ser e o viver são ambos naturais, entretanto, para ser, para ser algo mental, e não mera composição de matéria natural, preciso viver. Por sorte um morto também é, mas é apenas um corpo material desprovido de mente. A tentação é enorme para falar um corpo sem vida, mas mesmo naquele corpo morto, enquanto se decompõe existe uma profusão de vida bacteriana, talvez mesmo alguns vermes e etc., mas com certeza não há nele nenhuma vida que poderíamos definir como humana, não há nele nenhuma existência do ser que ele foi, pois que a morte simplesmente pôs fim a qualquer existência deste ser.
Por mais bonita que seja a afirmação "penso, logo existo", solta e sem contexto que a direcione, lançada assim do nada, me parece apenas mais uma falácia, um factoide que encanta, ou apenas uma brincadeira em forma de frase de efeito. Para pensar é necessário um cérebro, com um circuito cerebral minimamente funcional, e somente em um cérebro vivo isto é possível, assim: Porque existo como um ser vivo, e porque tenho um cérebro funcionalmente ativo, um circuito neuronal complexo e operando, é que desta complexidade pode emergir uma mente e um pensar, assim, logo posso pensar e somente assim posso afirmar que penso. Exatamente, graças a complexidade absurda de nosso circuito cerebral, pode emergir da mente natural e dos pensamentos, uma consciência do eu, ou dos eus que sou ou que penso que sou, assim, posso pensar sobre a pequena parcela consciente dos eus que me fazem ser, e mais ainda, posso pensar sobre a menor ainda consciência de que sou consciente de ter alguma consciência.
Eu não vivo porque sou, mas eu sou porque vivo. O eu penso, logo existo, apenas confirma que existo, que vivo, que sou, pelo fato de que penso, mas posso existir sem pensamento consciente algum (mas não posso existir ou pensar sem antes viver), digo consciente, pois que entendo que inconscientemente estou sempre a processar informações, e assim estou sempre pensando. O submundo de nossa mente é um eterno pensar, e este mundo escondido é a maior parte absoluta de tudo que somos. Assim, enquanto vivo, sou muitas coisas que sequer consigo imaginar que sou.


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