terça-feira, 9 de setembro de 2014

Filhos, educação, sobrecarga com descaso

Tenho certeza que estarei escrevendo algo que poderá gerar algum mal entendido ou controvérsia, mas mesmo assim não deixarei de escrever. Começarei falando que entendo falacioso, ou no mínimo algo de certo mal entendido acreditar diretamente que mais horas de escola signifique melhor ensino. Entendo que deva existir um mínimo de horas, mas nenhuma sobrecarga de horas focadas unicamente no ensino pode significar uma melhora direta no ensino.  Eu não sou necessariamente um destes. Uma escola de período integral implica em necessidade de infraestrutura, pessoal e equipamentos. Para alguns pais o que menos importa é a educação, pois que existem pais, e infelizmente muitos deles, que apenas desejam se “livrar” de seus filhos depositando-os em escolas de período integral, e assim se isentam, por todo o dia, da responsabilidade pelo cuidado, pela educação, e pela instrução e sociabilização de seus filhos, como que passando toda a responsabilidade para a escola. Outros pais o fazem por total impossibilidade familiar de ter alguém que possa acompanhar seus filhos em parte do dia. É importante dizer que não sou contra escolas de tempo integral, pelo contrário sou a favor, sou contra sim depósitos escolares de tempo integral. Uma escola, qualquer escola que ofereça ensino em tempo integral, necessita, ao meu ver, de ter uma boa parte do tempo alocada a lazer, distração, artes, música, dança, teatro, laboratórios, pesquisa científica, e etc., isto implica em espaço físico próprio para cada uma das diferentes atividades, e mestres ou instrutores preparados e motivados, além de turmas limitadas. Entendo que o ideal seriam escolas de turno único, é verdade, mas tendo seu turno com cerca de no máximo 7 horas, assim ousaria propor como um horário típico o das 9 horas até às 16 horas. Também entendo que este horário é péssimo para a maioria da população trabalhadora que por necessidade e dificuldade acaba gastando mais de 10 horas por dia com trabalho, em alguns casos mais até de 12 horas quando envolvemos os deslocamentos de ida e volta ao trabalho. Não dá para segregar o problema da educação, de um compromisso social, político e econômico sério. Por melhores e mais dedicados que sejam os professores, falar de Educação sem aderência a um plano sério político, econômico e social, é brincar de fazer educação. De nada adianta professores motivados, bem intencionados, preparados e dedicados, se em muitos casos o estado olha para a escola, não como uma Escola, não como um local sério, como um templo corresponsável pelo preparar integralmente seres humanos, um local preparador de indivíduos, de seres humanos completos, de seres capazes de pensar e criticar, mas sim, olha para as escolas, como locais de guarda de crianças para que a mão de obra barata de seus pais possa simplesmente exercer sua função capitalista de ajudar na geração e acumulação de riquezas para os que se locupletam com sua mão de obra barata, e olha para a educação como um simples repetidor, um perpetuador do que já agora é, na mera criação de nova mão de obra barata e incapaz de pensar por si só. E os professores, aqueles que trocam vida, compromisso e comprometimento com as crianças e os jovens, acabam por ficar numa situação onde desejam ser mestres, parceiros, fonte de exemplos e motivadores na caminhada destas crianças e jovens, mas falta-lhes suporte do estado, infraestrutura e vontade política de tornar entrelaçado políticas de Educação com políticas sociais e econômicas.  

Pais que não realizaram um processo forte de educação, ou aqueles não conscientes da importância e do valor da educação, assim que chegam em casa, acabam por continuar não vendo responsabilidade pela educação dos filhos e vão fazer milhares de outras coisas: assistir TV ou filme, ouvir rádio ou música, correr para um bar, “ir” para o computador, entrar nas redes sociais, “fazer” academias, ler e etc. Seus filhos parecem não ser prioridade deles, para alguns pais, os filhos necessitam de apenas alguma responsabilidade formal, alimentação, roupas e medicação (quando possuam dinheiro para tal), e só se lembram da educação em dois momentos, no início do ano para matrícula e no final para verificar se passaram de ano. Me perdoem, mas sinto certo tipo de rejeição deste tipo de pais, muitas vezes me esqueço que são eles também, o resultado de uma violência invisível, que se nivela á uma normalidade, pois que não ocorre por força de algum agente pessoal próprio, sendo uma violência sem rosto, sem dono, e sem culpado prático, mas que leva muitos destes pais a serem exatamente o que são, pois que a sociedade assim o faz. A prioridade deve ser sempre os filhos (ou deveria ser, não somente os nossos filhos, mas todos os filhos, pois que são eles os únicos capazes de em algum expoente de força, transformar esta violência invisível em algo que possa ser um novo marco zero para servir de base, contra ou a favor, da violência visualmente percebida), ou então porque os tivemos? Por puro sexo? Talvez até aí exista um problema de Educação (com “E” maiúsculo sim). Muitos pais pensam: tenho dinheiro, compro o de melhor para eles, ótimas escolas, videogames de último tipo, celulares poderosíssimos, Internet de alta velocidade, sala de filme, sala de música, sala de jogos, títulos de sócios, cursos extracurriculares, tudo que o seu dinheiro permitir, mas a atenção, o carinho, a troca de olhares, o abraço, o beijo, a afeto, a conversa, a companhia, o brincar com, a cumplicidade, o dormir junto, o contar histórias, o levar para passear, o comer junto, o dividir seus temores e novidades, parecem coisas de menor valia. Muitos outros pais, os sem posses, os descamisados, pensam que nada podem fazer. Depois estes filhos perdem a referência e passam a identificar a escola, onde passam, às vezes, mais de dez horas, como seu lar, e preferem a escola à sua casa e à própria companhia dos pais, ou acabam por rejeitar a escola e a próprio conceito de educação.

Escutei algo fantástico: Semelhantes a nós, no passado, lutaram social, econômica e politicamente para termos uma jornada de trabalho de 8 horas, e achamos ótimo que nossos filhos tenham uma jornada de estudo de mais de nove ou dez horas, parece realmente brincadeira.

A responsabilidade pela educação de nossos filhos tem de ser nossa e indiretamente de todos. Sou o responsável pela educação global de meus filhos, sim, porem divido com a escola alguma responsabilidade também, como deveria ter o respeito de dividir com toda a sociedade este trabalho para com a educação, a instrução e a sociabilização de meus filhos, sem jamais abrir mão, eu também, destas responsabilidades.

Se estes pais são assim com seus filhos, e como muitos destes pais são empresários, como esperar que vão se preocupar com os filhos de seus empregados? Se muitos pais são assim, irresponsáveis para com a educação, como esperar que eles sejam parte ativa da sociedade na educação de todos.


É uma pena que as escolas e seu corpo funcional não tenha por si só força o bastante para superar tudo isto, talvez não falte vontade a muitos professores, diretores e funcionários de apoio, mas falta sim apoio e suporte do estado e respaldo da sociedade para que consigam tudo que desejam. Infelizmente até mesmo alguns professores, diretores e pessoal de apoio sejam um pouco como aqueles pais, mecânicos e incapazes de realmente assumirem a importância e a nobreza de serem corresponsáveis pela Educação das crianças e dos jovens. Infelizmente o interesse financeiro fala muito alto, e o poder público quer realmente que os pais se livrem de seus filhos para que possam movimentar os interesses econômicos, de muitos daqueles pais que são empresários. Infelizmente a violência invisível que atua nos bastidores, mas também nos palcos da sociedade, também acaba por afetar professores, diretores e corpo funcional de apoio, exatamente como afeta muitos pais e a todos, em graus variados é verdade, mas os professores em geral possuem a chama viva da educação acesa, e basta um pequeno sopro de apoio, de suporte, de solidariedade, de comprometimento, e de sociedade, para a chama de amor e compromisso pelos alunos e pela educação inflamar-se completamente de novo, voltando logo a iluminar e a aquecer o relacionamento mútuo de educação.

Nenhum comentário:

Postar um comentário