Filhos, crianças ou jovens, mesmo os adultos, são filhos do
mundo, cabendo aos pais ou responsáveis apenas prepará-los para a vida, para a
realidade do viver, e não para a nossa vida ou para a realidade do nosso viver,
e muito menos prepará-los para a vida que creiamos ser a real, ou a que
creiamos ser a ideal ou a melhor, pois que a vida real já é a própria realidade
que vivemos. Desta forma, e tendo em mente que nossa função enquanto pais,
responsáveis, ou mesmo enquanto sociedade, é desenvolver nas crianças o que é
das crianças, nos jovens o que é dos jovens e nos adultos apenas e tão somente
a dignidade humana, pois que todo o resto derivará deste conceito de dignidade,
devemos nos ater a amar e preparar as crianças para que venham a ser jovens humanamente
equilibrados.
Eu não tenho que ensinar aos meus filhos, ou a quaisquer
crianças ou jovens, minhas crenças ou minhas descrenças, devo-lhes ensinar a
pensar livre, corajosa e profundamente, devo instigá-los a serem críticos, a
buscarem racionalizar, sempre que possível, sem limites, sem medos, sem tabus
ou preconceitos, a serem céticos a tudo que se lhes apresente ou falem, céticos
na medida certa, sem dogmatismos, pois que este ceticismo lhes obrigará a
estudar e a aprofundar suas percepções, mas devo-lhes ensinar que caberá a eles
suas escolhas, não enquanto crianças é certo, mas também enquanto crianças, as
escolhas de crianças forem.
Crianças são crianças, são livres, libertas, e longe de serem tábulas rasas, crianças são esponjas
para aprenderem, são ávidas para descobrirem novas coisas, e é ai que se encontra o perigo, principalmente como pais, pois que as
crianças são naturalmente susceptíveis a aprenderem de seus pais, pois que
neles confiam, e como pais não nos é direito induzir crianças a nada, pois
crianças são crianças, e devem ser tratadas como crianças. Devem brincar,
questionar, investigar, estudar, devem ter suas liberdades de crianças
possibilitadas e facilitadas, merecem todo cuidado em questões de saúde,
alimentação, cultura e envolvimento social, devem ser livres para crescerem.
Neste momento os exemplos de respeito à vida, ao humano, ao social e à natureza
são vitais, mas sem catequeses de nenhum tipo. As crianças devem ser muito
amadas e saberem que o amor é algo salutar e confiável, mas que o respeito é
algo muito mais prático.
Jovens, são por definição jovens, criaturas ousadas por
natureza, e se tiveram uma infância de amor e respeito, jovens serão criaturas
confiantes, criativas, curiosas, corajosas, um pouco revoltadas, um pouco
rebeldes, como devem ser os jovens, pois são eles que possuem a força motriz de
realmente realizarem transformações. Cabe-nos assim, não forçá-los por nenhum
caminho em especial, mas mostrar diversos caminhos, mostrar que existirão
caminhos que não podemos mostrar por desconhecimento, mas que são passiveis de
desbravamento também. Não nos cabe mostrar o caminho certo, ele é uma abstração
do real, existirão muitos caminhos certos, não posso lhe mostrar o meu caminho
certo, pois que talvez não tenha sido um caminho certo, e mesmo que o tenha
sido, terá sido o meu caminho certo, e pode ser o caminho errado para nossos
filhos, devemos assim, apresentar caminhos, trilhas, florestas ainda
indevassadas, mostrar que em geral os caminhos mais fáceis não levam a lugar
algum, ou se perdem no espaço-tempo do viver, que em todos os caminhos podem
existir obstáculos, uns mais fáceis e outros mais difíceis, mostrar que às
vezes para prosseguir é necessário recuar, e que um recuo consciente não é uma
derrota, apesar que muitas vezes seremos derrotados, muitas vezes sem saber de
onde veio a derrota, mas que devemos estar preparados para recomeçar quantas
vezes forem necessárias. Devemos os fazer ver que o caminhar sempre será uma
ação deles, devemos permitir a eles, com franqueza, honestidade, respeito e
amor, que usem suas criatividades, suas ousadias, sua revolta e rebeldia, para
crescerem como humanos, como seres sociais, como seres da natureza, e não como
meros seres dóceis, doutrinados, catequizados, frágeis ou inseguros de si
mesmo. Devemos fazê-los ver que sempre terão em nós companheiros, alguém que
muito os ama e que estará disposto a dividir, se possível for, o fardo, mas que
o caminhar deve ser deles, podemos até carregá-los no colo por algum tempo, mas
não conseguiremos carregá-los para sempre, mesmo porque pela regra natural, nos
iremos antes do que eles, e eles devem estar aptos para caminhar, ou erramos em
muita coisa.
Limites sim, doutrinas jamais.
Cuidados sim, exílio do mundo jamais.
Independência sim, desconexão com a realidade social jamais.
Caminhar junto sim, catequizar jamais.
Opinar sim, outorgar jamais.
Eles devem, de forma natural, com sua criatividade e
curiosidade explorar o mundo, aprender o mundo, aprender com o mundo, e
reconstruir este mundo.
Não interessa, ou interessa muito menos, o que eu penso, o
que eu sinto, ou o que eu creia ser melhor, e sim o que a realidade do mundo é.
Interessa muito menos a transformação que eu creia que o mundo precise, e sim a
real transformação que possa incluir socialmente milhões de desafortunados e
garantir ao nosso planeta, a todos os seus ecossistemas, capacidade de
sustentação e manutenção do potencial de evolução natural. Eu entendo que isto
seja um pouco do que seja realmente educar, educação com instrução, multidisciplinar,
mas sempre educação com amor, respeito, e pela busca de verdades e saberes
naturais. Educar não deve ser prepará-los para o meu mundo, mas sim, com
liberdade, democracia, respeito coletivo, e também com enorme deferência e
consideração para o nosso planeta, e para com toda a biologia que nele existe,
prepará-los para o mundo como ele é, e para a transformação humana, social e
natural que somente eles, os jovens, têm, com coragem e ousadia, de buscar e de
fazer acontecer.
O mundo possui mitos e superstições, achar que os livrarei
disto é me iludir, os mitos estarão a espreita entre amigos, nas escolas, e nos
filmes, livros e televisores, não adianta esconder isto deles, é necessário
mostrar que além dos mitos e superstições deve haver algo de real, de
interessante, de curioso, de verdade a ser buscado e entendido, e que a
curiosidade e algum ceticismo são armas poderosas para o crescimento mental e
humano de cada um de nós.
O mundo possui perigos? Sim. Cabe algum cuidado? Sim, mas
cabe muito mais que eles com o devido cuidado, ousem caminhar por este mundo e
aprendam como ele é por si só, e que somos nós, os humanos, que merecem
cuidados pela nossa prepotência, vaidade, maldade e desamor. Caminhar pelo
mundo requer muita responsabilidade e certo grau de cuidado, pois que os seres
humanos são potencialmente maus, perversos, fingidos, insensíveis,
interesseiros, omissos, e maquiavélicos, e que assim o cuidado deve ser algo
constante. Cuidados com o estado aético da natureza, sim, mas principalmente
com o estado antiético, imoral e desumano dos seres vivos que se dizem humanos,
mas também muito cuidado consigo mesmo, porque humanos, somos também
potencialmente fontes destas mesmas fraquezas.
O mundo é um contínuo de tomadas de decisões, e cabe-nos
mostrar a eles que serão eles os responsáveis por cada uma de suas decisões,
bem como o alcance final destas. Cabe mostrar a eles que, por isto, pensar é
importante, saber pensar é mais importante ainda, mas que pensar sem agir não é
viver, que não podem se ver atolados em dúvidas e não caminhar, que se
precisarem terão em nós, pais e responsáveis, amigos sinceros para discutir,
encarar e aprofundar possibilidades, para debatermos sem preconceitos, mas que
a decisão deve ser deles e que podem confiar em nós para estarmos com eles
nestes momentos de dúvida, pois dúvidas todos temos, somos humanos.
A decisão sempre deverá ser tomada por eles, não adianta
procurar nos outros, ou em qualquer ser sobrenatural as suas decisões e
escolhas, elas serão sempre de responsabilidade de cada um de nós, e não
adianta valorizar o passado, o que deu certo ontem, ou o que deu certo para
outra pessoa, não necessariamente dará certo agora, ou dará certo para eles.
Vocês podem, e devem, ouvir opiniões, mas as suas vidas serão sempre de vocês,
e opiniões devem ser vistas somente pelo que são, opiniões, nunca creiam
existir verdadeiros sábios ou autoridades do saber que lhes possam definir e
indicar categoricamente o caminho de vocês, ou que possam eles, lhes ensinarem
a viver e a caminhar, mas que vocês tenham a certeza que verdadeiros pais e
responsáveis sempre estarão a disposição para caminhar com vocês, nunca poderei
caminhar por vocês, mas estarei disponível para qualquer coisa, posso apoiá-los
em suas caminhadas iniciais, mas é preciso que eu diminua pra que vocês
cresçam, e se consegui um mínimo de educação correta, vocês saberão como
caminhar para que eu possa cada vez mais desaparecer. Lembrem-se, o viver e o
caminhar serão sempre jornadas individuais e solitárias em sua essência final,
será sempre algo pessoal, por mais cercado de amigos que vocês possam estar, e
não adianta delegar a ninguém caminhar ou viver por vocês, somente vocês o
podem fazer por vocês mesmos. Vocês possuem o poder de aprender e de caminhar
por vocês mesmos. A história nunca será o caminho para o presente, frente ao
futuro que sempre se descortina para o agora. A história é simplesmente
história. Se conseguirmos mostrar a importância da realidade presente, já
teremos sido bons pais ou responsáveis. Se conseguirmos dar a perspectiva do
que é ser um humano, e que não basta ser humano se não formos realmente seres
sociais, já terá valido a pena ter sido pais ou responsáveis. Se conseguirmos
mostrar que nem a moral e nem a ética são por si só absolutas, mas que por
outro lado também não são relativas por completo, onde tudo seja possivelmente
correto ou onde tudo é permitido, e que por isto a minha moral e a minha ética
não são únicas, nem são medidas naturais para as outras, e que talvez nem sejam
as melhores, e que assim, devemos aprender a entender e perceber que outros
poderão possuir outras éticas ou outros comportamentos morais, e que nem por
isso serão menos comprometidos, ou menos responsáveis pela dignificação do
viver humano e social, nos obrigando assim a um estudo crítico de cada ato
ético ou moral, meu ou dos outros, onde devemos entender que tudo que não
macule a dignidade humana e social, ou a perpetuação da natureza, é por
definição aceitável ética e moralmente, cabendo apenas a questão de que será
tão mais ético ou moral, aqueles atos que permeiem por mais tempo, por um
número maior de pessoas, por um maior espaço geográfico possível, as dignidades
humanas, sociais e da natureza, em especial a biológica.
Sei que posso estar totalmente errado, mas errarei por minha
total conta e risco, e somente o futuro me mostrará se, no geral, errei mais ou
acertei mais, todos erramos e acertamos. Agora, uma coisa é certa para mim, catequeses,
quaisquer que elas forem, religiosas, políticas, ou seculares, quero-as
distantes de meus filhos, sei que algumas vezes poderei parecer insensível para
com meus filhos, mas prefiro parecer insensível do que me sentir insensível à
necessidade de que eu diminua para que eles cresçam...




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