quarta-feira, 23 de julho de 2014

A Vida

A vida é muitas coisas, entre elas a vida, a nossa vida, o viver esta vida é algumas vezes entendido também como uma espécie de jogo, cujo último lance é aquele que nos tira eternamente deste jogo. Seria a vida é um jogo real? Daqueles que se joga em tempo real? Diferentemente de um jogo em si, o nosso viver não possui nenhum "reset", a perda, o sofrimento e a dor são reais, entretanto, reais também são a alegria, a satisfação, a felicidade e o amor.


O “jogo” da vida, comparado com qualquer outro jogo, possui uma complexidade infinitamente maior. O jogo da vida ocorre em um “sistema” caótico. O volume de interações externas ou internas tende a infinito, onde muitas interações passam completamente despercebidas no tempo e no espaço. Não que seja um jogo totalmente aleatório, ele é até, em algum nível, um jogo determinístico, porem como desconhecemos todos os ingredientes, todas as engrenagens, todas as composições de todos os estados espaço-temporais de cada momento presente, como desconhecemos todos os fatores que direta ou indiretamente afetam o realizar do presente de nosso viver, como não conhecemos as interações presentes e também passadas, parece que vivemos em pleno e total descontrole e descompasso com qualquer determinismo maior.

O conceito determinante do caos não leva a algum processo totalmente aleatório ou indeterminado, o determinismo existe, mas a sucessão de ciclos de interações deterministas é afetada durante cada lance do “jogo” do viver por uma sucessão de elementos não conhecidos, ou conhecidos apenas em parte, e no final de alguns ciclos (poucos em alguns casos, e inúmeros em outros), a imagem que fica é a de indeterminismo total e aleatoriedade absoluta. Do ponto de vista da pessoa, pelo seu desconhecimento, a vida, o viver, parece algo totalmente, ou bastante indeterminado.

Diante disto, sinto certa tristeza sempre que ouço de alguém que ele tem total controle sobre sua vida, ele não o tem, ninguém o tem, ou quando ouço ao contrário, que ele não possui nenhum controle, por que temos algum controle, parcial, limitado, e sujeito a inesperadas interações.
Duas pessoas, duas corporações, dois Estados, duas entidades podem fazer exatamente as mesmas coisas, e uma ter sucesso ao final de algum tempo, e outra ter fracasso absoluto, isto exatamente porque não temos controle absoluto sobre nada, e estamos, cada um sujeitos a interações diferentes, que afetam de forma diferente a cada um.

Uma simples bala perdida é o bastante para mostrar o descontrole que temos sobre nossas vidas. Uma crise econômica na china e nosso presente pode se transformar sem que tenhamos culpa alguma ou tempo para reagir. Um terremoto, uma virose, um acidente, uma simples chuva, uma doença, ou a simples morte de uma pessoa pode afetar diretamente nosso viver.

Hoje estou tomando uma decisão fácil no nível cognitivo básico, mas completamente complexa quanto ao desconhecimento de seu impacto a médio e longo prazos, principalmente em meu viver, ou no daqueles que muito amo.

Toda decisão tem um “preço”, preço que em sua totalidade desconhecemos, pode assim se tornar um custo impagável em médio prazo, ou pode significar um preço mínimo frente ao que pode vir pela frente em felicidade e em paz de espírito.

A dúvida é sempre cruel. Por isto busco não me ver envolvido ou consumido pelas dúvidas, mas que elas ousam em incomodar, isto é pura verdade. Busco assim não abrir portas para esperança alguma. Penso, com a racionalidade que me for possível, com certo ceticismo, com as informações que disponho e com a lógica que for capaz de aplicar, digiro certo tempo, e busco decidir. Uma vez decidido, agora é continuar vivendo e realizando o que de melhor me for possível realizar, estando aberto para desistir da decisão tomada, ou ajustá-la a qualquer instante, com a mesma análise crítica que empenhei para a tomada da decisão.

Sou gente, sou humano, fadado à morte e passível de erros, sou agente ativo do jogo e sou tambem peça passiva deste mesmo jogo real, sou agente dual neste jogo, ativo quanto faço e decido, e passivo quanto certa marionete da complexidade caótica deste mesmo real que me afeta e interage constantemente comigo, sou a ousadia de ser e sou a inação da incapacidade de reagir, sou a ousadia de reagir e em certa parte a inação de ser, sou a ousadia de tentar transformar, e a inação de ter de muitas vezes aceitar simplesmente porque aceitar é a única coisa possível, tenho domínios sobre o que faço e sou um total alienado e sem domínio sobre muitas das jogadas que faço ou daquelas de que sou pela vida forçado a jogar sem saber sequer o porque de muitas destas jogadas. Durante este jogo da vida ganhei muitas vezes, perdi outras, mas no geral mais ganhei do que perdi.

Fiz agora mais um lance neste jogo, desta vez sobre a impressão de alguma consciência, agora o que me resta é viver, e continuar jogando, horas na defesa e outras horas no ataque, horas ousando, horas aceitando e horas transformando, horas sendo agente das mudanças, horas sendo mero figurante e outras horas sendo apenas palco ou cenário secundário para as mudanças, horas sendo e outras horas apenas vivendo, outras horas mais, infelizmente, apenas sobrevivendo.

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