Se você pensa que sabe o que é que eu sou, talvez eu seja, talvez já o tenha sido, talvez venha um dia a sê-lo, ou mesmo talvez seja em parte, ou parte do que sou seja o que pensas que sabe. O “volume” espaço-temporal que ocupo, ou do qual sou um elemento participante, enquanto existo, pode não ser “volumoso” o bastante para permitir que a probabilidade de eu ser, ter sido, ou vir a ser o que pensas, possa se realizar. Não se sinta triste por isso, eu também acho que sei o que eu sou, quem eu sou, e o como eu sou, mas é um ledo engano, eu sei somente parte do que sou, muitas vezes apenas acho que sei o que sou, do como sou e do quem sou, não sendo exatamente como penso, mas assim somos todos nós.
Não sejamos prepotentes de achar que sabemos mais sobre nós mesmos ou sobre qualquer um do que o que realmente somos capazes de saber. Em verdade estamos reclusos em nós e estamos também de certo ponto reclusos de nós mesmos, somos muito mais inconscientes do que gostaríamos de aceitar ou do que gostaríamos que verdade fosse. O próprio livre arbítrio, como o conhecemos, ou como o definimos regularmente, é para mim, em grande porção, se não totalmente, ilusório. O que pensamos decidir, ou o que acreditamos que decidimos conscientemente, sob domínio total de minha racionalidade, do ser ou dos seres conscientes que me fazem ser, é ilusão. Tudo, ou pelo menos boa parte do que acreditamos que decidimos conscientemente, já o havíamos decidido inconscientemente, sendo trazido a consciência apenas para que tomemos ciência e para que acreditemos que foi o ser consciente quem o decidiu, assim sendo sem domínio do meu ser existencial consciente, sendo desta forma um decisão cerebral e mental nossa, é verdade, mas não feita sob domínio racional ou consciente de quem somos. Assim, o livre arbítrio, a capacidade do eu, do ser que somos conscientemente decidir é uma ilusão, ou pelo menos é alguma ilusão.
Mas quem sabe eu não venha a estar errado, e certo aqueles que acreditam no livre-arbítrio como uma faculdade do ser mental consciente que somos. Entretanto, que minha crença na não existência do livre arbítrio não sirva para justificar nossas possíveis fraquezas, nossos possíveis erros, ou mesmo nossos crimes por ação ou omissão, por que em real situação fomos nós quem fez, quem decidiu, o fato de não ser consciente não nos exime do erro e da necessidade de tratamento, punição ou recuperação. Não sou jurista, não sou advogado, não estudo direito, mas se a lei tende a valorar apenas os atos conscientes, ela está errada pois somos muito mais inconscientes do que imaginamos, e isto reduziria ou poria fim a muitos erros, o que não pode acontecer, se foi o nosso eu consciente ou o eu inconsciente que fez, o que importa é que fomos nós quem o fizemos, e merecemos o devido trato legal, e se for o caso, dependente do crime e da situação somos ainda um perigo para a sociedade tendo sido consciente ou não, tendo ou não decidido racionalmente ou feito por puro impulso ou por decisão que não racional, apenas trasvestida de racional.
O caos é em si também determinístico, minha vida, nossa vida, todas as vidas, são em essência caóticas e assim também determinísticas. Confundimos caótico com totalmente aleatório, confundimos determinístico com cem por cento previsível. A maioria das “coisas” age de forma determinística, porem não é totalmente previsível em longo prazo, algumas outras sequer em curto prazo.
A nossa realidade é determinística, mas como desconhecemos todos os agentes envolventes, ela é também caótica, tão mais caótica quanto maior for o espaço de tempo decorrido, assim nossa vida é previsível (até certo espaço de tempo), mas parece agir, ao longo do tempo, como cada vez mais caótica, para piorar, nem eu sei exatamente o que sou, e muito menos os todos que já fui, assim ninguém, no fundo, poderá sabê-lo.

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