quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Nunca serei plenamente feliz

Uma vez que não posso, nunca poderei, ser plenamente feliz, pois o sofrimento, não necessariamente o meu, mas o de milhões de irmãos em espécie, me impossibilita disto, a menos que abrisse mão de algum comprometimento social e humano, assim, já me contento plenamente em não ser infeliz. Uma vida com alguns momentos felizes, e com o mínimo de infelicidade, já me é um viver agradável, digno, humano e o que é mais importante, possível, e suportável. Se longe do ideal, mas perto do tolerável, mas é bom que assim o seja, pois que, sentir a dor dos outros, sofrer indiretamente com eles, sentir o incomodo deste sofrimento, é necessário para que não nos isolemos da dor alheia e não nos omitamos de nos expor por alguma transformação nossa e desta realidade. 


Isto talvez me diferencie de muitos que se dizem sábios, não creio em felicidade plena, não a busco, não a espero e não proponho esta busca a ninguém, nem mesmo aos meus filhos, como também não acredito em sábios. Não acredito, não aceito como humano um estado, qualquer estado, onde possamos ser plenamente felizes, e desconfio de todos que se afirmam neste estado, sob qualquer argumento, pois que esta felicidade implicaria em falta de comunhão com os que sofrem, implicaria em independência e desconexão do sofrimento, da fome, da exclusão social, dos preconceitos, dos abusos e explorações a que irmãos, milhões deles, estão sujeitos todos os dias, mais ainda, não creio também em nenhuma filosofia que pregue ser o caminho para a felicidade plena, pois a entendo basicamente mentirosa. Não creio também em nenhuma filosofia para aprender a morrer, creio sim em filosofia como uma atividade prática, humana, racional e possível que me possibilita aprender a viver minimizando o sofrimento e maximizando alguma felicidade, além de me ajudar no aprendizado do abrir mão de toda e qualquer esperança.

Nunca serei plenamente feliz, por um lado, que bom, pois significa que existe em mim um que de revolta contra o que aqui está, e me manterá, assim, em movimento na busca de alguma transformação, entretanto, por outro lado, é ruim, pois que significa que a sociedade humana, universal, parece impossível de tornar-se uma sociedade plena de amor, de direitos, de responsabilidades, de liberdades e de justiça social, uma sociedade que tanto dignifica e respeita a natureza, quanto a vida, toda espécie de vida, que desta natureza emane.

Não sorrio por ser plenamente feliz, sorrio para dividir alguma felicidade com os outros.

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