Nada nos espera. Tudo nos espera. Tudo está disponível, nada
é obrigatório e nem tudo é alcançável.
Passo por muita coisa, nunca passarei por tudo. Passo por
muita coisa, o que é muito pouco frente ao tudo que seria possível passar, mas
somente passo por aquilo que seja factível em realidade passar.
Por favor, não me venham com a argumentação de que tudo está
em mim, ou de que a realidade é uma mera criação do mental. Solicito
educadamente que não me tragam argumentações do tipo: pode ser que sequer
existamos, desta forma o tudo e o nada passariam a ser absolutamente relativos
também. Se alguém realmente acredita que não existamos, por que perder tempo
discutindo este assunto. É coerente, para mim, que eu existo, materialmente,
mas também é claro para mim que a forma como tomo percepção das coisas é
totalmente subjetiva, construída no passado (pois primeiro necessita ser
processada antes de virar algo consciente) e levada a consciência a posterior.
O fato das imagens mentais que me permitem conhecer e perceber a realidade do
eu e do mundo pode ser, e creio realmente que seja, apenas uma imagem
subjetiva, onde a realidade pode não ser como a percebemos, e a física quântica
tem nos mostrado muito disto, mas imaginar que simplesmente porque percebo as
coisas no passado, me iludindo que é presente, e por imagens, por construções,
por mapas mentais subjetivos, imaginar assim, que a realidade não existe, me
parece perda de tempo. Mesmo que no extremo, nosso cérebro esteja conectado a
supercomputadores capazes de nos induzir impulsos que simulem a realidade que
percebo, que sequer tenha corpo, que seja apenas cérebro conectados a milhões de
eletrodos me induzindo todas as imagens que percebo, a realidade continua a
existir: existe o cérebro, a máquina que nos induz por impulsos que ela mesmo
nos manda, e existe algo mais do que a máquina, para que a máquina em si possa
existir. Sim a realidade pode não ser o que percebemos, pode não ser a imagem
que criamos, muitas más formações cerebrais levam pessoas a ver, ouvir, sentir
e perceber coisas que não existem, eu posso ser um destes, em coma, imaginando
tudo o que existe, mas isto, de novo não inviabiliza uma realidade por trás
disto. Com todo o respeito a quem assim
o pense, que a realidade não existe, que tudo é irreal, tenho apenas a comentar
que no mundo do “pode ser” tudo pode ser, mas este não é o mundo que creio, e
entendo como melhor que esta pessoa nada discuta, pois se tudo é irreal, ela é
irreal, eu seria irreal, seria irreal nossa discussão, para que discutir se
tudo é irreal.
Pode ser que deus exista, pode ser que não exista, pode ser
que exista um deus que não é um deus, que seja apenas um criador transitório,
pode ser que sejamos nós mesmos deuses de nós mesmos, pode ser até que existam
deuses dos deuses em uma hierarquia infinita, pode ser que nosso deus seja um
demônio disfarçado, pode ser que não exista deus algum, que ele seja apenas um
meme criado que deu certo. Sem ofensa aos que acreditam que a realidade não
existe, ou que é totalmente relativa, só posso dizer que entendo isto como
brincadeira de criança. O que é relativo não é a realidade, muitas vezes
impenetrável é verdade, mas relativa é a interpretação que dou dela, que damos
dela, relativo é o que percebo, é o como aceito cada coisa que percebo,
distorço, omito ou crio desta realidade.
Pode ser que o como percebo o vermelho, não seja como você o
percebe, mas ambos temos que aceitar que o mesmo instrumento tanto utilizado
por mim que posso ver o vermelho de uma forma, como você que pode o ver de
outra, como quando utilizado por um daltônico, ou mesmo por um cego, apontará
para o mesmo comprimento de onda. Alguém já pode estar ansioso para me
interromper, dizendo que o próprio instrumento pode não existir na realidade,
que pode ser uma mera criação subjetiva.
De novo, sem querer tornar-me pedante, no mundo do tudo pode ser, tudo
pode ser, e não vou entrar por esta seara.
Volto a dizer que no mundo do pode, tudo pode, mas por mais
que você, ou que eu, ou que o daltônico, ou que um cético, ou que um secular, ou
que todos os religiosos do mundo, em uníssimo de fé, ao mesmo tempo mentalizem
que o vermelho quando mensurado dê outro comprimento de onda, isto não
acontecerá. Junte agora todos os céticos, todas as outras pessoas, todas as
crianças, e mesmo assim se todos mentalizarem que aquele mesmo vermelho
apresente outro comprimento de onda, isto continuará não acontecendo. O que
pode ocorrer é que a nossa percepção, esta sim pode ser convencida, pode ser
induzida, pode ser iludida, pode ser direcionada para que vejamos outra cor
como vermelho, sim isto pode acontecer, mas se continuarmos mensurando aquele
mesmo vermelho, que agora já o vemos com outra tonalidade, ele continuará
apontando para o mesmo exato comprimento de onda. Posso colocar um óculos de
filtro que transforme parcialmente a cor, mas se mensurado o vermelho, antes de
passar pelo filtro ele apontará para o vermelho, e se mensurar depois do
filtro, ele mensurará a exata mesma cor que eu ou outro qualquer veja, mesmo
que designemos por nomes diferentes estas cores.
Isto vale para tudo, a realidade, seja ela caótica ou
previsível, seja ela material direta, ou material indireta como um pensamento,
seja ela do macro mundo, sela ela do micro mundo, esteja ela aqui ou acolá,
seja ela probabilística ou determinista, nossa interpretação dela sempre será
relativística, mas a realidade estará lá presente, mesmo que em vários casos
seja ela de impossível determinação pelos nosso sensores, pelos nossos
sentidos, nossos equipamentos e mesmo pelo nosso processamento mental ou
computacional. O certo é que a complexidade assume um nível tal que talvez jamais
conheceremos a realidade como um todo, em essência, de tudo, mas isto, em
hipótese alguma, a faz menos real. Pode ser que estejamos condenados a viver em
um escopo percebido limitado ou simplificado de toda a real realidade, mas isto
não retira a realidade do contexto. Mesmo eu não sabendo o que você esta
pensando agora, eu não sabendo como você é, ou o que você está vestindo, não
faz de você menos real, apenas não o consigo perceber, só isto.
É logico que assim penso porque sou um realista, por que
vejo o mundo com a lente dos realistas, mas sinceramente, apesar de estar
aberto a outras percepções, ainda não houve conceito algum que me removesse
desta leitura do mundo, mesmo a física quântica, pode ser percebida como uma
realidade, não intuitiva muitas vezes, probabilística a maioria das vezes,
indeterminada outras, quase mágica algumas vezes, mas ela pode ser totalmente
interpretada como algo real. Lembro apenas que a probabilidade é um item de
realidade, e que o fato de eu não saber exatamente o que está acontecendo, o
como ocorreu algum evento não o faz transcendental, ou irreal, o faz tão
somente não percebido em sua essência, ou não mensurável pela tecnologia e
conhecimentos atuais. Muito do que hoje conhecemos como as engrenagens no
submundo dos fenômenos, eram desconhecidas a algum tempo, das ondas de rádio, a
decomposição, a radioatividade, a genética, a cosmogênese, e um milhão de
outros conhecimentos, não eram conhecidos no passado e não faziam do mundo um
algo menos real. Apenas como provocação, é claro que o desconhecimento fazia do
mundo um maná para os místicos.
Assim nada nos espera, tudo nos é disponível e apenas uma
pequena parcela nos é acessível, mas o tudo e o nada que fazem este mundo são
reais. É ilusão pensar diferente, mas tudo bem se você assim pensar, posso
muito bem conviver com você e ainda assim respeitar seu direito de assim o
pensar, desde que você não use de seu pensamento para não agir pela dignificação
do humano e do social, ou que você não me permita externar o que penso.

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