segunda-feira, 14 de abril de 2014

Certezas

Dizem que os sábios têm muito poucas certezas, talvez nenhuma, não conheço nenhum sábio e sinceramente acho que eles não existem verdadeiramente, mesmo os que se auto intitulam ou são por nós intitulados como sábios, mas se existissem, não poderiam e não deveriam ser eles meros pensadores, teriam que ser revoltados e atuantes, não em causa própria, mas sim em prol daqueles abandonados a “sorte” da miséria. Não me refiro a uma revolta de ódio e rancor, não falo também de alguma revolta desesperada, mas falo de uma revolta empática e sensível pela dor deles, de uma revolta que nos motiva a ser ousado pela transformação de nossa realidade. E quanto aos sábios terem poucas certezas, fica bonito no falar, eleva uma falsa sensação de humildade, mas não é a pura verdade, talvez também por isto eu não creia em sábios. 


Tenho a certeza que o volume das coisas que desconheço excede em muito o volume das que conheço, o que é por si só também uma certeza. Sei que matematicamente sempre existirá margem, mínima que seja, para que algo que eu creia que saiba com certeza, possa estar errado, e estou pronto a mudar minha crença tão logo alguma evidência concreta assim o mostre. Mesmo que provar o absoluto de algo seja muito difícil, talvez em essência natural, para muitas coisas, seja mesmo impossível, mesmo que muitas certezas sejam mesmo não intuitivas, pareçam contrariar o senso comum, ou que não sejam aquilo que gostaríamos que fosse, sei que a realidade macroscópica é lógica (dentro da sua lógica natural e não necessariamente da minha lógica humana e subjetiva) e assim posso ter certezas mesmo que sem provas absolutas, gostaria de lembrar que a probabilidade é uma certeza, que o caos em si mesmo também possui lógica, por isto o lado cético deve estar sempre alerta, até mesmo para me fazer buscar comprovações sempre e cada vez mais profundas e reais, saindo da superfície dos fenômenos e entrando na profundidade da realidade muitas vezes ainda escondida. 

Dizer que um sábio saiba muito pouco é, para mim, brincar com as palavras. Apesar do ceticismo ser algo que entendo bom e provocativo para o nosso aprendizado, todos sabemos muitas coisas, sejam históricas, sejam ligadas a lógica ou a matemática, sejam mesmo fenômenos naturais. Como já disse, sei que o que não sei excede em muito o que sei, mas isso não retira o valor do que sei. Posso não saber o que seja a gravidade, mas duvidar que a gravidade exista é brincadeira, posso não saber o que seja realmente o espaço, mas duvidar que ele exista é loucura. Tanto sei que o espaço e a gravidade existem, que vivo por eles e graças a eles. Todos sabemos que a gravidade existe e ninguém se joga de uma ponte acreditando que flutuará, todos evitamos ficar sob um prédio prestes a cair, em um terremoto todos tentamos sair dos prédios, e por ai vai, ninguém duvida que a gravidade exista. Posso não saber definir claramente o que é vida, mas duvidar que ela exista é devaneio de criança. Posso não saber definir o que a realidade é, mas é real que a realidade exista, e que está fora de nosso subjetivo, mesmo que somente possa perceber a realidade de forma subjetiva, mas existe uma diferença entre o que percebo e o que é. Posso, ainda, não saber definir o que o pensamento é, o que é a mente, mas duvidar deles, e duvidar que eles sejam uma emergência funcional de nosso cérebro é querer me iludir. Posso não saber o que seja em totalidade a consciência e como ela opera funcionalmente, mas sei que ela existe, e sei também que o inconsciente é muito maior que a consciência. Muitos outros itens podemos não ter como provar absolutamente a sua verdade, mas mesmo sem prova absoluta, todos sabemos que é verdade e que vai acontecer. A morte é uma delas, não sei como e quando vou morrer, não tenho como provar que alguém, eu ou você, iremos morrer, mas duvidar disto é ser irreal com a realidade. Eu sei que a única prova real e absoluta que vou morrer é quando eu morrer de verdade, mas se alguém duvida que vai morrer está com algum desequilíbrio mental, a história e a estatística estão totalmente a meu favor, de que todo ser humano, todo hominídeo, todo primata e mesmo todo animal que nasceu, morreu, mesmo homens deuses tiveram que realizar sua morte, Jesus, Buda, Maomé e outros tiveram que morrer (e olha que se deus realmente quisesse nos mostrar seu poder, algo simples como manter vivo pela eternidade um homem deus, mesmo que não fizesse absolutamente mais nada na natureza, seria por si só uma prova fantástica de seu poder). Sei que alguns poderão dizer, mesmo a certeza de que o sol nascerá pela manhã, de amanhã, não é absolutamente possível, a menos depois que ele já tenha realmente nascido. Sim, eu sei que a prova absoluta de algo é complicada, talvez até impossível, mas duvidar disto beira o ridículo. Eu sei que se não beber agua morrerei, mas a única prova real seria não beber agua e comprovar se realmente morreria, mas ninguém duvida que sem agua o caminho é o da morte. Se a sabedoria, por princípio busca a paz e a felicidade, do conhecimento e do viver, é impossível imaginar alguém feliz com o sofrimento de crianças por aí, só se a desumanidade for a chave para a felicidade deles, ai sábios existem aos milhões...

Perdoem-me a grosseria. Perdoem-me a aparente brincadeira, mas um sábio sem atitude, omisso no realizar de sua felicidade, e inativo na contemplação do ser e do existir, é para mim totalmente dispensável para a sociedade, pois que passa inodoro, incolor e transparente para a necessidade de milhões em sofrimento. A felicidade de um sábio, se sábios existissem, deveria ser aquela do conhecimento da dor alheia, da certeza de que algo deve ser feito, e da certeza de que está fazendo o possível e o impossível para transformar a sociedade, não local, mais globalmente, pela inclusão social dos milhões de abandonados, e em menor escala, tendo certeza de sua sensibilidade e de sua empatia pela dor e pelo sofrimento do irmão, e estando disponível de corpo e alma mental para ajudar, para participar, para dividir esta dor, e se for o caso, para carregar no colo este irmão.

De qualquer forma, diferentemente, tenho muitas certezas, e tenho também muito mais incertezas e desconhecimentos: Sei que pouco sei. Sei que quanto mais sei, mas tenho a certeza que muito mais falta para saber. Sei que em muitas coisas, quando muito, entendo por aproximação. Sei que nunca enxergarei toda a verdade. Sei que nunca saberei por que existe algo ao invés de nada existir. Sei que nunca saberei se vai dar cara ou coroa, até ter lançado a sorte. Sei que o teorema da incompletude é realmente completo. Sei que apesar de claramente saber a meia vida de todos os elementos, nunca saberei exatamente qual átomo específico decairá. Sei que nunca saberei exatamente se a origem da vida é totalmente local, ou pertencemos a algum tipo de panspermia. Sei que nunca saberei qual poderia ser o referencial totalmente inercial para nossos estudos. Sei que se o fenômeno é importante, e o positivismo teve sua necessidade de ser, sei que a realidade é muito mais importante, o submundo das engrenagens reais é o que faz a diferença, por isto sou um realista. Sei que a vida, a biologia que saltou em complexidade do físico-químico é maravilhosamente importante. Sei que o social e o coletivo são mais importantes que o individual. Sei que nunca saberei o momento exato de minha morte. Sei que nunca conhecerei a morte frente a frente, pois que vivo não sei o que é a morte, e morto, não terei como saber o que ela é. Enfim tenho a certeza de que no máximo sempre saberei muito menos do que aquilo que não sei. 


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