segunda-feira, 21 de abril de 2014

O tempo importa, mas não faz assim tanta importância

O tempo importa, mas não faz realmente muita importância. A vida e a natureza, estas importam muito mais. Entendo o tempo como uma percepção do intocável, construído mentalmente, em uma mente imperfeita, cheia de falhas de “projeto”, exatamente por não ter projeto algum.


O tempo parece fluir, em paralelo com esta impressão envelhecemos de verdade, é claro que algo ou alguém deve ser o culpado, pois que nossa lógica humana diz que para cada evento deve haver uma razão de ser, pois o intuímos (mas nos esquecemos de que a realidade não precisa ser intuitiva, e muitas vezes não é), assim  como não ousaríamos culpar algo, mesmo que este algo seja ele mesmo intangível (pelo menos diretamente). O tempo em si deve realmente existir, mas não que flua como água em um rio, ou como aquela flecha do tempo que povoa nosso pensar, que sempre nasceria no passado e sempre se dirigiria para o futuro. A nossa sensação subjetiva do tempo fluindo é tão forte, nossa mente a construiu ao longo de nossa evolução como uma forma de entender e justificar a sequência de eventos, que juramos que sua “fluidez” seja tão imanente como uma rocha. Mas pode ser apenas alguma das muitas ilusões criadas por nossa mente para que ela possa entender melhor a realidade. Entendo que o tempo exista e o vejo como uma das dimensões físicas da realidade, mas entendo também que ele não flua, exatamente como o espaço em si não flui. Algumas pesquisas de ponta, que podem estar errada pois que ainda não foram devidamente testadas ou refutadas, mostram que não somente o tempo existe, mas que ele, revolucionariamente é o precursor de tudo, até o espaço tão mais comum aos nossos olhos, seja algo derivado, decorrente do tempo em si. Isto seria uma reviravolta bem forte em nossa percepção do tempo espaço. Pode estar certa, ou pode estar errada, somente o tempo poderá nos ajudar (ajudar na verdade os físicos teóricos e experimentais nesta interpretação).  

Como explicar o antes e o depois se o tempo não existisse, ou mesmo se existisse mas não tivesse uma direção a caminhar, sempre para a frente, sempre para o futuro?  Nossa percepção dele diz, quase grita aos nossos olhos e ouvidos, que ele tem, assim, que existir, e deve sempre caminhar, e a natureza como um todo se curva a ele, deixando a realização do presente para que o passado possa provar que o tempo existe, e que ele caminha, inabalável e presunçoso de sua superioridade e de seu domínio, para o futuro. Mas terá de ser assim?

Mas será que é assim mesmo? Será que tem de ser assim? Ou assim nos parece simplesmente porque fomos programados ao longo de muitos milhões de anos (cerca de 6 milhões como hominídeos, e até cerca de 500 milhões de anos, se nos focarmos apenas na vida terrestre – vida que saiu do mar para solo continental), mas no fundo nossos primos distantes, viventes no mar, mas que já possuíam algum nível de circuito neuronal, talvez possam também terem sofrido alguma pressão seletiva que possa ter impresso neles também o reflexo de um tempo que sempre passa. Pode ser que sim. Pode ser que não. 

Ao iniciarmos nossa jornada como hominídeos, acidentada, casual, sem destino, sem planos ou direção específica, acabamos por realizar mentalmente, e selecionada geneticamente, de uma forma talvez desajeitada ainda, que o depois sempre seguiria o antes, que o agora sempre ficaria para traz como passado, e que podemos nos lembrar do antes, jamais nos lembraremos do depois, e assim, nossos irmãozinhos hominídeos, ainda muito mais “símios” que humanos foram cada vez sedimentando este conceito, hoje natural, que temos do tempo, de que ele existe, tem realidade própria, e que sempre caminha para a frente. Isto pode ser uma ilusão criada e apropriada por nossa mente para nos dar conforto e segurança da realidade, ou pode ser que seja assim mesmo. O fato de eu não crer no tempo como algo que caminha, algo que existe sendo a própria fluidez para um futuro, não significa que ele seja assim e que eu esteja totalmente equivocado. Gostaria de deixar claro que creio que o tempo exista, que seja ele uma dimensão natural, que é absoluta e ganha sentido na composição espaço-tempo, começo a cada vez mais crer que seja o tempo a dimensão principal, de onde todas as outras puderam derivar, e por isso a sacada da relatividade que o objeto espaço-tempo seja uma única coisa em absoluto.

Hoje, falar o contrário, que o tempo não existe parece contrassenso para mim e muitas pessoas. Falar que ele exista mas não caminhe para o futuro parece ser também um contrassenso para muitos, e falar que seja o tempo a origem de tudo ainda é um contrassenso para a maioria absoluta de todos. 

Apenas como teste, tentei conversar este assunto com minha mãe, e ela me chamou de maluco, com a mesma argumentação que sempre acaba me passando, de que se a maioria absoluta acredita naquilo, como posso eu ser mais inteligente que a multidão e dizer o contrário. É a mesma exata argumentação que ela faz acerca do meu ateísmo, diz ela: “milhões de pessoas, cultas, ricas, famosas, “até mesmo juízes”, acreditam na existência de deus, até a bíblia confirma isto, como você (eu), pode se achar melhor que eles todos e não acreditar”. É minha querida mãe, e eu a amo, apesar desta comparação ser infeliz, mas é ela também que não acredita que o homem foi à lua, ou que somos um ser animal que evoluiu de simiescos animais, sendo em essência primatas, mas tudo bem, ela é minha mãe e eu relego tudo isto, não deveria eu sei, mas relego.

Mas nossa percepção é falha, não somente nisto. Quem disse que a realidade tem de ser intuitiva? A realidade é muito contra intuitiva, mas para a maioria isto é coisa de maluco.

O que percebo, até com certa graça, é que quando falamos do espaço, tudo parece mais fácil, não do espaço enquanto aquele lugar fora da terra, onde os “Ets” e nossas naves viajam, quando falamos do espaço enquanto aquele lugar tridimensional que na prática não podemos também tocar, sentir, ou mesmo ver, mas que está ali, aqui e em todo lugar, e do mesmo modo sem uma estrutura argumentativa que o possa descrever detalhadamente, de forma fácil. Mas todos, de alguma forma, percebem subjetivamente o espaço como algo estático, não deformável, e que podemos nos movimentar por ele, tudo pode na verdade por ele se movimentar, e o aceitamos assim de forma fácil. O espaço, nesta percepção básica, existe estático, indeformável, talvez com um fim, ou mesmo sem ele, aberto ou fechado, e somos nós, segundo nossa percepção, mas nós nos movemos por ele (cabe apenas dizer que contrário a esta percepção, o espaço não é indeformável e muito menos estático, ele está em expansão e é sim deformável, em presença de matéria, gravidade ou energia, é pode ser inclusive curvo, ou fechado em si mesmo, o que mostra como não intuitiva pode ser a realidade). Quando alguém ousa comentar que o tempo possa ser assim também, uma dimensão a mais, intangível em si mesma, porem que não se move, sendo nós e todos os objetos é que nos movemos por ela, acabam sendo quase qualificados como sonhadores, para dizer o mínimo. A sorte é que a ciência, em algumas linhas de pesquisa tem chegado a resultados quase assustadores contra nossa própria intuição do que seja a realidade.

Vamos com calma e por partes.

O espaço não é indeformável, ele não é nem de perto um espaço euclidiano, “liso”, “plano”, e talvez nem o seja contínuo, talvez seja granular, o que facilmente explicaria o conceito de ponto, mas isto é outra estória, quem quiser pode perder um tempo tentando ler meu texto, publicado em 11-06-2010 “A irreal e paradoxal realidade - Divagações sobre o paradoxo de uma realidade irreal.” em que discorro como esta possibilidade daria vida a um conceito teórico, o do ponto, e assim toda a geometria passaria a ter vida nascida de algo real, e não de um conceito transcendental, necessário, mas intocável, o do ponto. Mas o que importa agora é que o espaço não é indeformável, ele pode ser deformado, podendo ser granular, pode inclusive ter mais do que as três dimensões que conseguimos perceber, pode também existir mais de um espaço, no conceito do multiverso. Mas não para aí nossa intuição incompleta, para feri-la um pouco mais, o espaço pode não existir sozinho, independente, pode ser que ele faça um único corpo, totalmente entrelaçado com o próprio tempo, e assim não caiba mais falar de tempo e de espaço, e sim de espaço-tempo, um único corpo, uma única realidade, uma única existência, e agora com esta visão não há necessidade de o tempo ser algo que caminha, e sim que nós, os corpos materiais caminhemos por este espaço-tempo, exatamente como acreditamos, hoje, fazer pelo espaço. Assim a relatividade do tempo e do espaço passam ter vida própria, unificada, e agora sim majestosos e poderosos. Igualmente como o espaço se deforma na presença de massa e de gravidade, o conjunto único espaço-tempo se deforma também, e atalhos podem existir neste espaço tempo que nos permita viajar muito mais rápido que o limite imposto pela velocidade da luz em um espaço-tempo não deformado, ou pouco deformado.

Tudo isto para dizer que o tempo não deve existir enquanto entidade autônoma, e sim enquanto entidade única com o espaço formando o grande bolo espaço-tempo, ou talvez mais, que seja o tempo, aquilo que possibilitou a existência do próprio espaço. E de quebra comentar que a realidade é muito mais não intuitiva do que somos capazes de imaginar, e muito mais “loucuras” ainda estão por vir.

O tempo importa, mais não faz muita importância, simplesmente porque o tempo é. O espaço-tempo, sim, importa totalmente, e assim a vida e a natureza importam, para nós, mais ainda, posto que é nelas que encontramos a realidade do nosso existir, e o espaço-tempo oferecem o sustentáculo possível para que tudo exista.

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