quarta-feira, 23 de abril de 2014

Filhos

Algo que todos com certeza somos. Gostemos ou não de nossos pais, conheçamos ou não eles, tenhamos sido criados ou não por eles, respeitemos ou não a eles e amemos ou odiemos nossos pais, sempre seremos filhos de alguém. Somos filhos e ponto.

Metade de nossa carga genética vem de nosso pai, e a outra metade vem de nossa mãe. Nem por isso somos necessariamente um “mix” existencial de ambos. Somos únicos, e sempre seremos solitários em nosso ser, seja ser, o que quer que seja. Seremos únicos também em nosso devir.

Por mais que nossos pais tenham participação em nossas vidas, e normalmente o terão, e além de por mais que nos deixemos envolver por pais dominadores ou super protetores, ainda assim seremos únicos. Podemos até culpá-los por nosso presente, mas não podemos dizer que são os únicos culpados. Somos, em última instância, corresponsáveis diretos por nossos atos, tão logo deixamos nossa infância, e nossa responsabilidade cresce a medida que também crescemos biologicamente.

Ninguém vive a nossa vida. Somente nós vivemos as nossas experiências de vida. Somente nós sentimos nossas dores, nossas alegrias, nossos medos, nossos prazeres, nossas felicidades, nossos mais íntimos sentimentos, nossas emoções, e nossos desejos. Somente aqueles, pelo menos aqueles que acreditam que possuem algo de místico em seu sentir, podem experimentar suas próprias experiências astrais ou transcendentais. Somente nós, nós próprios, podemos viver nossos pensamentos e nossas crenças. 

Somos complexos, somos um pouco do que nascemos, é lógico, mas somos também o que a vida nos tornou, e vida aqui tem o sentido de tudo, de nós mesmos, da sociedade, da realidade, das fatalidades, e do próprio estado caótico de interdependência das coisas que aconteceram e acontecem. Temperamos nosso ser com um pouco do que desejamos conscientemente ser, e com muito do que a realidade nos induz, nos faz sentir e conhecer, nos força a aceitar, nos provoca a experimentar, e desta forma, por isso mesmo, somos únicos em nosso complexo mundo físico, biológico, mental, introspectivo, subjetivo, psicológico e social.

São raras as certezas que podemos ter. Uma delas, talvez a maior, é que a morte física nos pertence. Ela virá, por mais que não a desejemos. A morte nos será eternamente certa, entretanto não a devemos temer. Ela não é nada. Do nada viemos, e para o nada, com certeza, nos dirigiremos. Então, por que temer o que não é nada? Não devemos assim, temer a morte. Devemos sim amar, louvar e desejar a vida. A morte nos será certa. A vida nos é eterna enquanto eterno for o nosso presente, e incerta, neste mesmo presente, mas certa em algum futuro, que um dia se fará nosso presente. A nossa morte, para nós mesmos, nunca será passado, pois que tão logo pereçamos a ela, não existiremos para senti-la, percebê-la ou entende-la. A morte só é passado quando não somos nós quem morremos, e assim podemos perceber e sentir a a dor e a falta dos que se foram (ou mesmo, em alguns casos, a felicidade, por mais maldoso que isto possa parecer, de alguns que já se foram, como a morte de alguns que sequer deveriam ter nascido).

Realizem comigo: A morte é exatamente a eternidade do nada. Jamais dividiremos um só instante, um ínfimo e micro instante com a nossa morte, posto que enquanto vivos a morte nada é, e quando morto, eu nada mais sou. Assim, jamais compartilharemos, em vida, da realização da morte em si, por isso devemos vê-la como um nada. Porque sofrer pelo nada? A realização final da morte, para a vida, nada é. A morte somente é alguma coisa para os que continuam vivos e têm que prosseguir com a morte dos outros, muitas vezes que muito amam. 

Outra certeza que carregamos, tão forte como a anterior, é que se nascemos, somos filhos.

Podemos até não nos sentirmos filhos, podemos rejeitar nossos pais, mas isso não nos retira o atributo de filhos.

Sexo natural, inseminação artificial, fecundação in-vitro, sexo forçado, desejado ou não, contudo continuamos sendo filhos. Mesmo que mentalmente busquemos apagar de nossa mente a imagem de nossos pais, removendo a lembrança de que eles tenham existido, jamais apagaremos de nossa biologia a assinatura de que somos filhos de alguém.

Se aqui chegamos, parte de nossa genética é de um pai, qualquer que seja ele, e outra parte genética é de uma mãe, seja ela ou não quem nos criou.

Amanhã, quem sabe, poderemos desenvolver a clonagem humana. Eu pessoalmente sou contra, mas este é assunto para outro texto. O certo é que chegaremos a este dia, e a partir deste instante desaparece o conceito de pais (no plural, pai e mãe) como hoje o conhecemos. 

Mesmo nesta data, onde a clonagem humana passe a ser algo verdadeiro e corriqueiro, seja a carga genética totalmente de uma mulher, ou seja, ela originaria de um homem, ainda assim persistira, pelo menos o conceito de mãe, sendo esta aquela que gerou em seu ventre o ser que irá nascer.

É óbvio que a clonagem, além do conceito moral que deve ser bem discutido por toda a sociedade, suscitará novas dúvidas quanto a considerações éticas e biológicas que serão postadas por esta nova realidade. Espero que o homem encontre justificativas éticas para as novas considerações que surgirão. 

Como vimos, a mãe que gestou o clone, desde o zigoto, até o seu nascimento continuará existindo, por muito e muito tempo. 

Alguém poderá dizer que o homem poderá um dia criar uma máquina, ou pelo menos um aparelho que propicie a gestação artificial desta nova vida. Em sendo isto verdade novas considerações éticas deverão ser levantadas e analisadas. Pelo que me consta, não estamos sequer perto de algo parecido. Por isso não me aprofundo nesta discussão, mas se existir tal possibilidade, ela levantará nova discussões acerca do conceito de pais e filhos. No mundo do se, e das possibilidades que um dia poderão ser realidade, mesmo a carga genética poderá ser totalmente criada artificialmente, todo o genoma poderá um dia ser montado, editado, criado,  e estruturado como uma espécie de lego, e neste caso até a carga genética desta nova criança será por si só totalmente independente de qualquer conceito biológico de família. Hoje já criamos em laboratório uma carga genética bacteriana por este princípio de montagem artificial, e o futuro, se não nos destruirmos antes, ou algum evento cataclísmico nos destrua, com certeza chegaremos neste estado tecnológico. Novamente, espero apenas que estejamos eticamente preparados para este momento.  

Biologicamente falando, mesmo nos casos de clonagem humana, a célula zigoto, que desenvolverá o novo ser, possui biologicamente uma carga genética original, metade que foi de um pai e metade que foi de uma mãe, daquele ser clonado, poderíamos ser considerados uma espécie de irmãos da fonte do clone.

Se supormos que a carga genética para o clone, seja da própria mãe que fará a gestação do feto, ainda assim, esta carga genética é parte do pai da gestante e parte da mãe desta. Assim, este bebe, será geneticamente filho do seu avô e da sua avó. Neste exemplo, a mulher, cujo corpo gera a criança, será mãe enquanto gerando o bebê, e irmã, enquanto uma análise genética. Qual será a saída ética e legal para esta situação? Eu não sei.

Generalizando, existirá, com certeza, a menos da construção artificial de algum aparelho para gestação, uma mulher que será a mãe física que possibilitará a gestação. 

A carga genética pode ser desta mesma mulher, de outra mulher, ou mesmo de um outro homem. Porém toda a carga genética, de qualquer ser, a menos da montagem artificial de um genoma, será metade de seu pai biológico e metade de sua mãe biológica. Assim, geneticamente falando, este novo ser gerado inicialmente por clonagem humana, sempre terá um pai e uma mãe biológica. 

Se eticamente e legalmente isto terá alguma influência, eu não sei, mas o que importa, para este texto, é que mesmo clonados, teremos sempre uma mãe responsável pela gestação, e geneticamente teremos um pai e uma mãe. 

Apenas para mostrar o grau de complexidade que deve ser analisado, vamos supor que uma mulher, seleciona como carga genética, um dos seus avós. O bebe terá assim uma carga genética que é metade de seu tataravô e metade de sua tataravó. Ao nascer este filho, será maternamente gerado por um seu bisneto. Será um tio de seu bisavô, loucura estrutural, mas verdade possível. Apenas como provocação, pensemos, um zigoto, seja ele natural da união de um espermatozoide de um pai e de um óvulo de uma mãe, ou seja mesmo clonagem, está assim “completo”, sendo metade de sua carga de um pai e a outra metade de sua carga de uma mãe, mas agora, apenas como provocação, com o avanço da engenharia genérica substituímos alguns genes, ou para remover doenças genéticas, ou para incluir atributos físicos “desejáveis”, e este novo genoma alterado em laboratório se desenvolve naturalmente em uma gestação normal. A provocação é a seguinte, geneticamente, este ser não mais possui metade de sua carga genética oriunda de um pai, e outra metade oriunda de uma mãe, ele passa a ter quase metade de um pai, e quase metade de uma mãe, e uma parcela genética que não é de nenhum deles, para piorar imaginemos que alguns destes novos genes venham de um ou mais homens, e outra parte venha de uma ou mais mulheres. Assim a carga genética deste novo ser é de múltiplas origens. Como será tratado ética e legalmente este novo ser? Quem será seu pai e mãe? Todos serão pais e mães? Pensemos assim, que todos poderão desejar a paternidade e maternidade desta criança, uma vez que a carga genética não mais coincide com metade do pai e metade da mãe, pois possui, neste exercício mental, genes, diversos genes, de diversos “pais” e de diversas “mães”.  

Mesmo desta forma, continuaremos sendo FILHOS, de um casal de pais, ou de múltiplos pais.

Um filho não nasce para seus pais, e sim para o mundo, é verdade. Isto é um fato que não podemos esquecer, ou que não deveríamos esquecer. “Seus filhos não são seus filhos, mas filhos da ânsia do viver” já falava a muito tempo K. Gibran.

Até este momento, permiti a minha mente fluir sem críticas, quanto ao filho biológico, mas, ser filho é muito mais do que sê-lo unicamente biologicamente. Ser filho é também uma questão de ação, de cultura, de sentimentos, de vontade e de AMOR.

Somos filhos, também, de quem nos criou, sejam eles nossos pais verdadeiros, uma mãe solteira, um pai solteiro, uma família que nos criou ou nos adotou, sejam eles nossos avós, tios, ou outros quaisquer. Eles serão, também, nossos pais emocionalmente. Somos seus filhos, se não de direito, pelo menos de sentimentos e de dever. Somos filhos, igualmente, de entidades filantrópicas que podem ter nos criado, como asilos, orfanatos, berçários e etc.

Como filhos somos o cerne de uma família. Para este que aqui escreve, uma família nasce e ganha vida, quando é chegado um filho, seja ele natural, biológico ou adotado.

Um casal, para mim, e para desespero de muitos, não é uma família, é tão somente um casal.

Uma mulher solteira (ou um pai solteiro), com um ou mais filhos é, para mim, uma família.

Uma família, para mim, tem a ver com continuidade, mas isto será assunto de um próximo texto, e com a “bagunça” genética que a engenharia genética acabará um dia por nos levar, nem que seja somente para “remover” doenças genéticas, esta relação de continuidade biológica ficará no mínimo complicada de ser tão simplesmente definida.

Nascemos filhos (pelo menos por enquanto), mas nascemos para o mundo. É nosso dever, respeitando sempre nossos pais (desde que mereçam o respeito), buscarmos nossa independência física, mental e psicológica. Não escolhemos nossos pais, e por mais que possa chocar alguns, somente devem ser digno de respeito aqueles pais que mereçam o respeito, mesmo que algum(ns) livro(s) sagrado(s) mandem respeitar pai e mãe.

Quando crianças, normalmente, vivemos a fase mais feliz de nossas vidas. Somos ingênuos, somos livres em nossa quase total dependência. Somos capazes de nos alegrar com amigos invisíveis, somos capazes de fazer de uma pedra um carrinho, de outra pedra um boneco, de uma tampinha de refrigerante um tesouro, de uma caixa de sapatos um cofre para nossos tesouros. Normalmente vemos nossos pais como perfeitos e como heróis. A vida nos leva a crescer, se não morremos por este caminho, e devemos passar a ver nossos pais também com olhos críticos e buscar neles a essência do que são, e não o sonho que deles fizemos, e podemos, assim, em alguns casos, muito nos decepcionar, e alguns destes pais passam a ser indignos de nosso respeito.

Sempre filhos (de novo por enquanto), crescemos e nos tornamos arredios, revoltados por nossa própria natureza, é da juventude, e é bom que assim o seja. Procuramos ardentemente nossos próprios caminhos, e nossa independência psíquica. Percebemos que nossos pais podem não ser perfeitos (e geralmente serão imperfeitos) , que não são heróis, mas mesmo assim, muitos deles continuarão pais dignos e merecedores de nosso maior respeito. Independentes de continuarmos amando-os, passamos a ser revolucionários por natureza, passamos a ser contestadores, as vezes até parece que olhamos nossos pais como inimigos.

Como filhos, continuamos crescendo, e aprendendo a viver nossa própria vida. Voltamos lentamente a perceber que nossos pais, na maioria das vezes, tinham alguma razão, nunca foram nossos inimigos. Nosso amor parece crescer, não como gratidão (apesar dela existir), não como compensação, mas como resgate da doação do AMOR recíproco que existia desde o início, e que algumas vezes passou a existir, quase que unicamente na direção de nossos pais para conosco.

Como filhos (?) crescemos, e acabamos de alguma forma a também termos filhos. Aqui nasce uma nova família, centrada neste filho e tudo volta a ocorrer, desde o início.

FILHOS

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